quinta-feira, 22 de junho de 2017




                                               Brasil, Copas e Craques

Daqui a um ano o mundo assistirá a abertura do 21º Campeonato Mundial de Futebol, o qual será realizado na Rússia. Já estão classificados a Rússia, país sede e o Brasil, único a participar de todas as edições da Copa do Mundo.

Iniciamos a série “Brasil, Copas e Craques” que mostrará a participção da seleção brasileira nos mundiais e os craques que se destacaram em cada edição.                  

      Na primeira Copa, uma vitória e uma derrota – I -
O futebol brasileiro é o único que participou de todos os campeonatos mundiais. Nas duas primeiras Copas realizadas no Uruguai, em 1930, e na Itália, em 1934, as divergências entre os dirigentes cariocas e paulistas impediram que a seleção brasileira se apresentasse com a sua força máxima.
A Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA) reivindicou a inclusão de um dos seus membros para integrar a Comissão de Esportes da Confederação Brasileira de Desportos. O forte argumento dos paulistas era o título do oitavo campeonato brasileiro de seleções em 1929.
Frustrados com a negativa da entidade nacional ao seu pleito, os dirigentes da APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) resolveram não ceder seus jogadores para a seleção brasileira. Condicionava a revogação da medida se a CBD recuasse da sua decisão. Tal fato não aconteceu e a Comissão de Esportes, encarregada de formar o nosso selecionado, teve que contar apenas com os jogadores do Rio de Janeiro.
A imprensa paulista, como o Correio Paulistano, se referia ao selecionado brasileiro como a “representação carioca no mundial de futebol”.
Ao contrário, os jornais cariocas apoiavam a nossa seleção. O Correio da Manhã noticiava: “a despeito de tudo e ainda do desinteresse oficial, o futebol brasileiro será representado no primeiro campeonato mundial”.
Dessa forma não pudemos contar com craques como Friedenreich, Feitiço, Del Débbio, Petronilho, Grané e outros. A exceção foi a presença de Araken Patuska, do Santos, que brigado com o clube se colocou à disposição da CBD.
Alheios a politicagem dos dirigentes cariocas e paulistas, os torcedores compareceram em grande número no cais da Praça Mauá, no dia 2 de julho de 1930, para se despedirem da delegação brasileira rumo ao Uruguai.
Nossa delegação chegou a Montevidéu a bordo do navio Conte Grande, após cinco dias de viagem, contando apenas com os jogadores cariocas do Botafogo, Fluminense e Vasco. As exceções eram Poli, do Americano de Campos, e Araken Patuska, o único paulista. 
Treze países, convidados pela FIFA, disputaram a I Copa do Mundo: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai, Estados Unidos, México, Bélgica, França, Iugoslávia e Romênia.
O elenco brasileiro era composto por: Joel (América), Veloso (Fluminense), Brilhante (Vasco), Itália (Vasco), Zé Luiz (São Cristóvão), Benedito (Botafogo), Hermógenes (América), Fortes (Fluminense), Luiz Luz (Peñarol); Fausto (Vasco da Gama), Fernando (Fluminense), Benevenutto (Flamengo), Pamplona (Botafogo), Oscarino (Ypiranga - Niterói), Martim (Botafogo), Ivan (Fluminense); Araken (Santos), Doca (São Cristóvão), Carvalho Leite (Botafogo), Moderato (Flamengo), Manoelsinho (Canto do Rio), Nilo (Botafogo), Preguinho (Fluminense), Poli (Americano - Campos), Teófilo (São Cristóvão) e Russinho (Vasco).
             Henrique Coelho Neto, o Preguinho, sentiu grande emoção ao carregar a bandeira brasileira no desfile de abertura da Copa:
            “Quando entrei no estádio, carregando a nossa bandeira na abertura da Copa de 1930, o estádio todo ficou de pé e aplaudiu. Lembro-me bem. Nós entramos logo depois da delegação dos Estados Unidos. O Zé Luís chorava e berrava: “Peito erguido, peito erguido!”. Nós todos chorávamos de emoção”.
            Preguinho comentou sobre sua convocação e falou das dificuldades enfrentadas pela nossa delegação:
            “Iniciamos o treinamento, no Rio, com dois escretes cariocas. Eu fazia parte do B. Depois veio o treinamento em São Paulo. Para este treino, nem fui convocado. No seguinte, aconteceu à mesma coisa. Não me chamaram, mas o Del Débbio, zagueiro, protestou e acabaram me convocando.
            O técnico no começo era o Vinhais. Depois, não houve mais nenhum. Eu estava em boa forma, mas precisaria competir com Feitiço e outros do mesmo gabarito, quando estourou a bomba: São Paulo não cederia seus jogadores. Para completar, no último treino, o Carvalho Leite, nosso center-forward quebrou a mão.
            Viajamos assim mesmo, sem cozinheiro, levando o nosso próprio feijão e ficando hospedados no centro da cidade, no Hotel Colon, enquanto os outros ficavam em concentração fora da zona urbana. Éramos 27 pessoas e um grande chefe, o Ministro Afrânio Costa.
            O primeiro jogo foi contra a Iugoslávia. Fazia um frio danado. Seis graus abaixo de zero era uma temperatura que nem os próprios uruguaios se lembravam de ter sentido.
            Dominamos o jogo inteiro, mas eles em duas escapadas fizeram dois gols. Quando ainda faltavam trinta minutos para acabar o jogo eu descontei. Mas aí o goleiro pegou tudo, a bola foi várias vezes na trave e perdemos mesmo de 2 a 1.
            No jogo com a Bolívia mudaram tudo. Ganhamos de 4 a 0. Fiz dois gols. A nossa ala esquerda marcou nossos cinco gols na Copa”. (Declarações a Revista Fatos e Fotos – edição especial de 11 de junho de 1970).
O Brasil ficou no grupo II com a Bolívia e a Iugoslávia. A seleção brasileira estreou contra a Iugoslávia, em 14 de julho, no Estádio Parque Central de Montevidéu. Na derrota por 2 a 1, Tirnanic e Beck marcaram os gols iugoslavos e Preguinho fez o gol brasileiro. O atacante do Fluminense entrou para a história como o autor do primeiro gol brasileiro em Copas do Mundo.
Nosso técnico Gilberto de Almeida Rego colocou em campo: Joel (América), Brilhante e Itália (ambos do Vasco); Hermógenes (América), Fausto (Vasco) e Fernando (Fluminense); Poli (Americano), Nilo (Botafogo), Araken (Santos), Preguinho (Fluminense) e Teófilo (São Cristóvão).
Em 20 de julho, no Estádio Centenário, o Brasil venceu a Bolívia por 4 a 0. A equipe brasileira sofreu seis alterações: Veloso (Fluminense) entrou no lugar de Joel; na zaga Zé Luiz (São Cristóvão) substituiu Brilhante; e no ataque saíram Poli, Nilo, Araken e Teófilo e entraram Benedito (Botafogo), Russinho (Vasco), Carvalho Leite (Botafogo) e Moderato (Flamengo). Os gols brasileiros foram assinalados por Preguinho (2) e Moderato (2).
O resultado diante dos bolivianos não foi suficiente para classificar os brasileiros, porque a Iugoslávia, vencedora do Brasil, derrotou a Bolívia também pelo marcador de 4 a 0.
Na partida final da Copa de 1930, a seleção uruguaia, bicampeã olímpica, ganhou da Argentina por 4 a 2, sagrando-se campeã mundial.
O grande nome da seleção brasileira foi um maranhense de Codó. Fausto dos Santos disputou a Copa do Mundo de 1930 com 25 anos e suas excepcionais atuações impressionaram os uruguaios que o chamaram de “A Maravilha Negra”.
Sua carreira começou no Bangu. Após se transferir para o Vasco conquistou os títulos cariocas de 1929 e 1934. No exterior, Fausto defendeu o Nacional, de Montevidéu, o Barcelona e o Young Fellows, da Suíça.
Numa entrevista ao jornal A Noite, referindo-se a derrota do Brasil por 2 a 1 frente à Iugoslávia, Fausto desabafou:
“Araken jogou como uma bailarina; Poli tinha medo da própria sombra; Nilo fugia da bola e Teófilo nem se aproximava dela”.
            Na edição número 2 da Revista 10 - julho de 2004, Carvalho Leite, aos 92 anos, centroavante do Botafogo, que substituiu Araken contra a Bolívia, em entrevista a Cristina Rigitano, lembrou alguns fatos sobre o mundial no Uruguai:
“Nós viajamos a bordo de um navio. Fazia muito frio. Saímos sem festa. O futebol não era o que é hoje. A viagem foi muito cansativa.
Por conta do vento gelado, os jogadores passaram a viagem inteira, enclausurados nos camarotes do navio sem poder se exercitar o que comprometeu muito o desempenho dos brasileiros no mundial.
Fomos prejudicados pela viagem. Em outras condições, teríamos jogado muito mais. Preguinho era do Fluminense e jogava muito. Ele dava muito trabalho”.
Carlos Dobbert de Carvalho Leite nasceu em Petrópolis e começou a jogar futebol no Petropolitano. Veio para o Rio e tentou o Fluminense, porém não foi aprovado por Luís Vinhais, técnico tricolor.
No Botafogo, Carvalho Leite conquistou os títulos cariocas de 32 a 35. O atacante alvinegro liderou a artilharia nos campeonatos de 36 (16 gols), 38 (16 gols) e 39 (22 gols).
Em 1934, emprestado ao Vasco para uma excursão à Europa, viveu um dos momentos inesquecíveis de sua vida. Na Espanha, marcou um belo gol no espanhol Zamora, considerado o melhor goleiro do mundo.
Convocado para os preparativos com vista a Copa de 38, Carvalho Leite treinou apenas quinze minutos e foi cortado por Ademar Pimenta. Segundo ele, a atitude de Pimenta era resultado de rixa antigo




 
Preguinho comparava os uruguaios, bicampeões olímpicos, à seleção brasileira

 
Seleção brasileira antes da partida de estreia contra a Iugoslávia: em pé, Brilhante, Fausto, Hermógenes, Itália, Joel e Fernando; agachados. Poly, Nilo, Araken, Preguinho e Teóphilo 

 

 
Fausto descansa durante um treino da seleção brasileira

 
Carvalho Leite quando integrou à seleção brasileira na Copa do Mundo de 1930
 
 
               

segunda-feira, 5 de junho de 2017




                          60 anos do primeiro título carioca no Rio São Paulo

A campanha invicta no Rio São Paulo

O Fluminense foi o primeiro clube carioca a se sagrar campeão do Torneio Rio-São Paulo em 1957. Apesar das ausências de Castilho e Pinheiro, ambas por problemas médicos, a equipe tricolor fez uma campanha irretocável. Obtendo 7 vitórias e 2 empates.
Castilho foi substituído pelo excelente goleiro paraguaio Vitor Gonzales e no lugar de Pinheiro, que participou apenas de parte do último jogo frente ao São Paulo, atuou Roberto, revelado nas divisões de base.
 Waldo, artilheiro do torneio com 11 gols, teve atuações espetaculares e fez gols incríveis.  Marcou diante do América (1 a 0) e do Flamengo (2 a 1), dois contra o Palmeiras (5 a 1), dois frente ao Botafogo (3 a 3), um contra o Corinthians (3 a 2) e dois no último jogo com o São Paulo (2 a 1).
Na partida contra o Corinthians, no Maracanã, o Fluminense vencia por 2 a 0, gols de Escurinho, aos 20 minutos, e Waldo, aos 22 do 1o tempo, cedendo o empate na fase final. Paulo diminuiu aos 21 e Robson (contra) igualou o marcador.
Faltavam dois minutos para terminar o jogo, quando Aldo quicava a bola na grande área para repô-la em jogo. Waldo se aproximou e num rápido golpe com o pé direito tirou a bola do goleiro. Levou-a para a lateral da área, contornou o bico da grande área, ficou de frente para a meta adversária e chutou para marcar o gol da vitória tricolor. Naquela partida, o time mostrou que era sério candidato ao título. Não faltava espírito de luta em nenhum jogador do elenco tricolor.
O Vasco era o próximo obstáculo. O 1o tempo terminou com a vantagem de 2 a 0 para o Fluminense, gols de Telê, aos 13 minutos, e Escurinho aos 41. Ainda na primeira fase, Vitor Gonzales foi atingido por um violento pontapé no olho esquerdo. Preocupação na torcida e no vestiário pela possível ausência do goleiro paraguaio no restante da partida.
Alberto, goleiro reserva de Vitor, já estava preparado para substituí-lo. Porém, Vitor Gonzales numa atitude heroica, com a vista esquerda praticamente fechada, retornou para o 2o tempo e teve uma atuação excepcional.
No empate de 2 a 2 com o Santos, no Pacaembu, marcaram os gols tricolores Telê e Léo. O Fluminense conquistou o título, por antecipação, ao vencer a Portuguesa de Desportos por 3 a 1, no Pacaembu, no dia 28 de maio de 1957, gols de Liminha, Valdo (2) e Léo.
No último jogo, no Maracanã, contra o São Paulo, outra grande exibição de Waldo, que brindou a torcida com dois gols na vitória por 2 a 1. Maurinho fez o gol do tricolor paulista.

 
 
Ivan, que estrearia na partida seguinte com o Palmeiras, cumprimenta Jair Santana após a vitória sobre o América por 1 a 0
 
 
Roberto e Clóvis no vestiário após mais uma vitória do Fluminense na campanha invicta no Rio São Paulo
 
 
Waldo, Escurinho e Vitor Gonzales tomam banho depois da vitória sobre o Flamengo, que manteve o Fluminense na liderança
 
 
 
Acima a sequência do incrível gol de Waldo contra o Corinthians, no Maracanã
 
 
Vitor Gonzales substituiu à altura o titular Castilho durante o Rio São Paulo. O chute de Pinga na partida diante do Vasco é defendido pelo goleiro paraguaio
 
 
Comemoração do gol de Léo no empate de 2 a 2 com o Santos
 
 
 
Vitor Gonzales foi o grande herói na vitória de 2 a 0 sobre o Vasco da Gama
 
 
Antes da partida contra a Portuguesa de Desportos, no Pacaembu, Telê e Djalma Santos se cumprimentam na presença de Eunápio de Queirós. Com a vitória por 3 a 1, o Fluminense conquistava o título de campeão do Torneio Rio São Paulo
 
 
 
 
 
Acima a sequência do gol da vitória diante do São Paulo, marcado por Waldo
 
 
Elenco do Fluminense campeão do Torneio Rio São Paulo de 1957: Silvio Pirilo, Vitor Gonzales, Clóvis, Beto, Jair Santana, Roberto, Alberto, Pinheiro, Ivan, Altair, Jair Marinho, Waldo, Cacá; agachados, Escurinho, Léo, Alecir, Paulinho, Djair, Jair Francisco, Osvaldo e Robson


 

segunda-feira, 10 de abril de 2017




                                              60 anos do recorde de Evaristo

 
              Evaristo de Macedo Filho foi um dos maiores atacantes brasileiros nas décadas de 50 e 60. Ele participou com a seleção brasileira do sul-americano de 1957, em Lima, competição em que marcou cinco dos nove gols contra a Colômbia na goleada por 9 a 0, no dia 23 de março de 1957:
 “No sul-americano de 57, nós fizemos uma boa campanha e chegamos à final contra a Argentina com 2 pontos perdidos, devido a derrota para o Uruguai por 3 a 2.  

A Argentina tinha uma grande seleção. A linha era Corbatta, Maschio, Angelillo, Sivori e Cruz. Jogava, ainda, o veterano Nestor Rossi, o goleiro era Dominguez, que depois jogou no Flamengo.  

No sul-americano havia substituição e na final eu joguei apenas 10 minutos. Numa jogada, recebi uma entrada muito forte e tive que sair. Índio entrou no meu lugar. Gilmar, também, se machucou, entrando Castilho. Perdemos por 3 a 0 para um grande time.  

Com relação a partida com a Colômbia, jogamos bem e os meus cinco gols aconteceram naturalmente. Meu recorde ainda não foi batido. Fico feliz por essa marca de cinco gols numa mesma partida na seleção brasileira.” 

O XIX Campeonato Sul-Americano foi disputado no período de 13 de março a 3 de abril de 1957, em Lima. O Brasil terminou como vice-campeão com quatro vitórias (Chile 4 a 2, Equador 7 a 1, Colômbia 9 a 0, Peru 1 a 0) e duas derrotas (Uruguai 2 x 3; e Argentina 0 x 3). 

Evaristo atuou como titular em todas as partidas. No jogo final diante da Argentina, o atacante logo aos 10 minutos se contundiu e foi substituído por Índio.

O Brasil enfrentou a Colômbia no dia 23 de março, no Estádio Nacional de Lima. Marcaram para a seleção brasileira, Pepe aos 27’, Evaristo aos 41’, 44’ e 45’; no 2º tempo, Didi aos 5’ e 15’, Evaristo aos 30’, Zizinho aos 40’ e Evaristo aos 41’.

Dirigiu o jogo o árbitro inglês Erwin Hieger e o Brasil, sob o comando de Osvaldo Brandão, atuou com: Gilmar, Djalma Santos, Edson, Zózimo e Nilton Santos; Roberto Belangero e Didi; Joel (Cláudio), Evaristo, Zizinho e Pepe (Garrincha).

     
 
Jogadores do Brasil no sul-americano de Lima, em 1957: Joel, Garrincha, Índio, Paulinho, Djalma Santos, Evaristo, Dino Sani, Pepe e Didi; Escurinho, Belini, Castilho, Oreco, Edson e Olavo
 
 



 
Os gols da seleção brasileira na sequencia de Jankiel, na Revista Manchete Esportiva

 
Evaristo toma o banho da vitória após marcar os cinco gols contra a Colômbia

domingo, 9 de abril de 2017



                                                          15 nos sem Mestre Ziza

Zizinho nasceu em São Gonçalo, na Avenida Paiva, numa casa que era sede de um clube de futebol, o Carioca, do qual seu pai era presidente. O futebol estava presente na vida do menino Tomaz desde seu nascimento. Cresceu, jogou bola e ficou conhecido pelo apelido de Zizinho:  

“Surgiu na infância. Eu tive seis irmãos: Zilda, Zélia, Almir, Zalmir, Zilma e eles me chamavam de Tomazinho. Meu pai era Tomaz e daí surgiu Zizinho. Meu nome é Tomaz Soares da Silva, meu pai era Tomaz e meu avô também. Esse nome é herança de família”. 

Os primeiros passos no futebol foram dados no Carioca FC, clube fundado pelo velho Tomaz. Zizinho fala sobre essa época: 

“Eu tinha 15 anos e comecei a disputar campeonatos pelo lado de lá. Com l7 anos, me transferi para o Byron, porque o Carioca deixou de disputar pela Liga de Niterói e do Byron vim para o Flamengo. Antes de ir para o Flamengo, eu havia treinado no Bangu. 

O Bonsucesso me convidou e o Roberto, aquele grande ponta da seleção brasileira de 38, com o Hernandez me levaram para treinar no São Cristovão. Mas, no São Cristovão, eu levei uma pancada muito violenta e não pude voltar, porque parei quase seis meses de jogar.  

Tive um convite de um treinador do América. Cheguei lá e ele olhou meus 63 quilos e não levou fé. Chamava-se Costa Velho. Não me deixou treinar, embora o convite tenha partido dele mesmo, com cartão dele. Depois o Oto Vieira, eu já estava com vontade de desistir, me convidou para treinar no Flamengo, a mando de um senhor que era chefe nos Correios e Telégrafos aqui no Rio, que se chamava Ari Fogaça e eu fui”. 

 Zizinho chegou ao Flamengo em 1939, com 18 anos e encontrou muitos craques consagrados:  

 “A Copa do Mundo tinha terminado e lá na Gávea estavam Domingos da Guia, Walter, Leônidas, Alfredo Gonzales, Valido, Jarbas. No meu primeiro treino, no Flamengo, estavam treinando Valido, Leônidas, Caxambu, Gonzales e Jarbas. O Leônidas se machucou e o Flávio perguntou: “quem é o menino de Niteroi, que joga na meia-direita? Eu disse: sou eu. Então, entra no lugar do Leônidas. Comecei assim. Me saí bem e fiz um contrato com o Flamengo”. 

Foi onze anos, de 39 a 50, defendendo as cores rubro-negras, maior parte da vida profissional de Zizinho. Ele nos falou sobre esse período: 

“Em 39, o Flamengo foi campeão mas eu não participei. Faltavam três partidas para terminar o campeonato e eu cheguei ao Flamengo, em 14 de outubro, um mês depois de completar 18 anos.  

O Flamengo jogou três partidas e joguei as três no time reserva. Naquela época, era reserva e não aspirante. O jogador que não jogava em cima, jogava em baixo. Tinham grandes equipes em baixo. Naquela época, tinha juvenis, amadores e reservas. O Fluminense, por exemplo, teve uma época que o ataque reserva era uma beleza. Jogavam Adilson, Juan Carlos, um jogador argentino que jogava muito bem, Rongo, que era um canhão, Pedro Nunes e Hércules”. 

            O Fluminense conquistou o bicampeonato, em 40 e 4l, mas Zizinho afirmava que o Flamengo fez boas campanhas nos dois anos:

             “Nós perdemos um campeonato incrível. O famoso Fla-Flu, de bola na Lagoa. Nós não podíamos perder aquele jogo. Nos tiraram daqui e nos levaram para Lorena, onde passamos uns dez dias . Uma concentração muito pesada e viemos na véspera do jogo. Em Lorena, estava fresquinho e aqui no Rio um calor de matar. Nosso time só veio se encontrar quando já estava 2 a 0. Nós dominamos o jogo e fizemos 2 a 1 e 2 a 2. Nossa equipe terminou com o Domingos da Guia, que era um beque que pouco saía  lá dentro da área do Fluminense. A lagoa era muito encostada ao campo e os caras jogavam a bola na lagoa. O Tim e o Romeu já estavam mortos de correr. Sofremos muito, não conseguimos fazer o terceiro gol e perdemos o campeonato de 41”.

               Uma das maiores conquistas do Flamengo ao longo de sua história foi o tri campeonato de 42 ,43 e 44. Zizinho nos contou sobre o primeiro tri rubro-negro:

“Esse tri foi famoso e dramático, porque nós ganhamos bem o campeonato de 42. Em 43, já foi um pouco mais difícil e em 44 estávamos sete pontos atrás e partimos para ganhar e ganhamos. A final de 44 é que foi dramática, porque do ataque do Flamengo, só ficaram eu e o Tião. O Perácio tinha ido para a guerra e entrou o Tião. Só eu e o Tião tínhamos condições de jogo. Válido jogou as três ultimas partidas do campeonato. Na véspera da final ele estava com quarenta de febre. Nós deveríamos ter ganho o jogo antes. O Vasco teve dois lances de saída, com duas grandes defesas do Jurandir e depois nós dominamos a partida. Perdemos muitas oportunidades e o gol saiu porque nós merecíamos”. 

 Sobre o discutido gol de Valido, que deu a vitória e o tri ao Flamengo, Zizinho deu sua versão: 

“Eu duvido que alguém cabeceie uma bola cruzada se apoiando no ombro de uma pessoa. Uma mente maldosa poderia criar uma coisa dessa. Vamos para o campo e peça a qualquer jogador de futebol que cabeceie uma bola, apoiando antes a mão no ombro de alguém. Se ele colocar as duas mãos no ombro do cara ele não vai olhar mais a bola. O lance foi normal. Naturalmente, pegaram uma fotografia do Valido caindo e na caída ele deve ter se apoiado nas costas do Argemiro, mas a bola já estava no gol ”. 

O Flamengo após a conquista do tricampeonato passou nove anos sem conseguir o título do então campeonato carioca. Zizinho permaneceu vestindo a camisa rubro-negra até l950 e nos falou sobre esse período:

“Bem, em 44, o time do Vasco já era melhor do que o do Flamengo. Honestamente, já era melhor e nós tínhamos que ganhar aquela. Nosso time já estava caindo e uma campanha de tricampeonato é muito cansativa. Os jogadores jogaram em péssimas condições a ultima partida. O Vasco cresceu muito, o Fluminense melhorou, também, a sua equipe. 

O Vasco foi campeão em 45, o Fluminense em 46 e nós nos perdemos um pouco. Já no tricampeonato, nós tínhamos perdido o grande jogador da equipe, Domingos da Guia. Quando nós olhávamos para trás e não víamos o Da Guia tomávamos um susto, porque ele era aquele homem frio, zagueiro que nunca mais acho que vou ver igual e aquele amigo de todos os momentos, que animava a gente. Nós éramos na maioria jovens ainda. Quando perdemos o Da Guia ...  

Ganhamos o tricampeonato na marra, na vontade dos jogadores, principalmente a ultima partida, quando não tínhamos ninguém em condições. O Vevé estava com problemas no menisco; Pirilo estava em péssimas condições de saúde; Valido entrou e na véspera estava com quarenta graus de febre. Precisava muito coração para ganhar do Vasco, que era uma equipe que estava subindo”.

Zizinho nos contou sobre a séria fratura que sofreu em 1946:

“Foi no jogo Flamengo e Bangu, no campo do São Cristóvão. O jogo estava ganho. Foi um ataque de estupidez minha. Estava 4 a 0 e eu tinha que andar em campo e não estar me expondo. Fui virar uma bola na linha de fundo. O campo do São Cristóvão estava meio irregular. Eu furei a bola e encontrei a trava do Adauto, que era meu amigo.  

Houve uma onda no Flamengo para processar o Adauto e eu pedi ao falecido Cozzi que levasse o Adauto no hospital, onde eu estava e ele lá, com um diretor do Flamengo, meio encabulado, olhava para mim meio triste. Eu disse, negão o que aconteceu, aconteceu. Tem gente que quebra a perna andando na rua, atropelado, descendo uma escada e eu quebrei dentro do meu trabalho. Não tem nada haver e nós vamos continuar amigos até que a morte nos separe. Esqueça isso, não arria a cabeça não, deite o cacete no próximo jogo, que isso é acidente de futebol”.       

Além das fraturas sofridas, “Mestre Ziza” passou por outros momentos difíceis:

“No futebol acontece muita coisa. A gente na hora perde a cabeça. Um dia eu parei de jogar no Instituto Abel, porque peguei o pé de um amigo no meu peito e achei que podia perder a cabeça a qualquer momento. A gente leva a pancada dói na hora. A gente perde a cabeça vai para forra. Na hora, nunca pensa que pode quebrar. Quebrar é uma consequência do futebol e eu quebrei a perna do Agostinho, em São Paulo. Me doeu mais quando eu quebrei a perna do Agostinho do que quando me partiram a perna. Fiquei chateado, passei 15 dias em Friburgo. Fui julgado pela justiça de São Paulo e fui condenado a 2 meses e 20 dias de prisão. Como era primário não cumpri pena.

Quando quebrei a perna, nunca pensei que deixaria de jogar. Minha vontade era começar tudo novamente. Os clubes não tinham os recursos que têm hoje. Eu me lembro, que no Flamengo, só tinha um secador de cabelo. Foi com ele que cuidamos do Pirilo. Ele estava machucado, nós passamos benguê e ficamos com o secador de cabelo na perna dele. Como é cara, tem que jogar domingo. Tem um jogo do Vasco aí, já está todo mundo quebrado e ele levantou, no domingo, para jogar.

Recebi o apoio do Dr. Paulo São Thiago, médico do Flamengo. Levei uns seis meses sem jogar. Quando voltei, o pior era que os jogadores do Flamengo no treino, não dividiam a bola comigo. A bola dividia e eles abriam. Eu tive que pedir uma licença ao Flamengo de um mês e jogar umas peladas em Niterói, naqueles campos bravos, onde o pau cantava. Fui testar, porque no Flamengo não dava para testar. Fui jogar bem lá no meio, de centroavante, para ficar bem junto daqueles zagueiros maus e aí voltei para começar tudo novamente.

Retornei contra o América. Jorginho me deu uma pancada na linha de fundo e tive uma fratura de perônio. Com o perônio partido joguei duas partidas no Flamengo. Só que a segunda partida, lembro bem, foi contra o Olaria, no campo do Flamengo. Chovia muito e quando peguei a barca para Niterói, cheguei do lado de lá e não pude saltar. Fui levado para casa pelos torcedores do Flamengo que estavam na barca. Me doia tanto que fiquei gelado. No dia seguinte, minha mãe que era enfermeira no hospital São João Batista, levou um médico de Niterói, que constatou que havia uma fratura. Fiquei parado mais dois meses”. 

No ano de 1950, numa transação milionária para a época, oitocentos mil cruzeiros, Zizinho deixou a Gávea e seguiu o caminho de Bangu:

“Um dia estava em casa e recebi o convite do Dr. Silverinha para ir ao escritório dele. O convite tinha sido feito, através do meu cunhado. Relutei em atender, por se tratar de um diretor de outro clube Mas, atendendo o apelo do meu cunhado fui até lá. Quando cheguei, ele virou-se para mim e disse que o Bangu havia negociado meu passe com o Flamengo. Perguntou, em seguida, se eu gostaria de jogar no Bangu. Olhei para o Silverinha e achei estranhas as palavras dele, porque eu não sabia nada daquilo. Ele sentiu que eu não estava acreditando e, então, pegou o telefone e ligou para o Dario de Melo Pinto, presidente do Flamengo, que confirmou pelo telefone. O Dr. Silverinha me perguntou se agora eu acreditava ou não. Eu respondi que botasse o contrato ali para eu assinar.
 
Quando eu quebrei a perna, joguei todo um campeonato no Flamengo, com o tornozelo enfaixado. Eu tirava após os jogos a bota de esparadrapo e meu tornozelo ficava enorme. Eu passava a semana toda sem treinar e no domingo jogava. Quando eu quebrei a perna, descobriram que eu tinha uma fratura no tornozelo e passei um ano jogando assim, sem saber. A fratura já tinha consolidado e só vim saber quando tiraram a radiografia da minha perna quebrada. Eu me sacrifiquei demais pelo Flamengo. Eu me lembro que joguei uma partida e ganhei um “Oscar”, do Jornal dos Sports. Havia comido um caranguejo naquela semana e fiquei todo inchado. Cheguei ao Flamengo e fui jogar o Fla x Flu.

Até hoje, que eu saiba, não havia razão para que eu fosse negociado dessa forma. Quem sabe bem essa historia é o Luis Carlos Barreto.              

Apesar de nada impor, porque minha mágoa era muito grande, a minha ida para o Bangu foi financeiramente vantajosa. Um jornal deu uma quantia astronômica para a época. O Silveirinha me chamou e perguntou se eu aceitava o que jornal publicou. Eu respondi que ele não tinha compromisso com a imprensa e nem foi dito por mim. Eu aceitei o que eu não tinha coragem de pedir. Fui ganhando seis vezes mais do que ganhava no Flamengo. Deixei claro que assinaria em branco, porque estava muito magoado com o Flamengo”. 

Zizinho foi comprado pelo Bangu, quando disputava o campeonato brasileiro pela seleção carioca e já como jogador do Bangu integrou a seleção brasileira para o mundial de 50:

“A partir de 42, eu sempre fui convocado como titular. O Tim sempre dizia para olhar a camisa do Domingos da Guia, porque a que estivesse com ele era a camisa do time titular.

Eu tive uma torção no joelho e não pude jogar as duas partidas iniciais do mundial. Fiz um teste na véspera do jogo contra a Iugoslávia, que era um jogo que eliminaria a gente, caso não ganhasse. Na véspera, estava me arrastando, mas o Flávio me obrigou a jogar essa partida. Eu me lembro que passei a noite quase em claro. Os medicamentos naquela época eram poucos e me colocaram um remédio que se usava no Joquéi Clube. Aquele negócio me queimava tanto, que eu levantei de noite e entrei no chuveiro, no campo do Vasco, para lavar meu joelho. 

No dia seguinte, enfaixaram meu joelho e eu joguei de joelheira. Felizmente, durante a partida meu joelho melhorou. Terminei a partida bem e joguei o resto do campeonato”. 

No ano anterior ao da Copa, 1949, o Brasil foi campeão sul-americano. A seleção perdeu para o Paraguai por 2 a 1 e na partida decisiva ganhou por 7 a 1. Sobre a perda do título mundial, Zizinho deu sua versão:

“São coisas que acontecem no futebol. Eu acredito se nós tivéssemos jogado uma segunda partida contra o Uruguai não teria acontecido a mesma coisa. O mesmo aconteceu com a Hungria, em 54, que era uma máquina.

Vocês também tiveram um pouco de culpa, porque foram montadas fotografias com faixas do Brasil campeão do mundo. Na véspera do jogo nós passamos o dia todo assinando milhares de fotografias, sem termos um minuto de descanso. Houve desconcentração para uma partida de futebol, em São Januário. Ninguém teve mais tempo para nada. Aquela multidão lá dentro...

O Vasco não teve culpa de nada. A culpa foi de quem nos levou para lá. Num momento, eu comentei com o Rui, parece que nós já ganhamos o título. Vamos ter um adversário difícil. Não é contra uma seleção da Europa, é contra o Uruguai. Os uruguaios conhecem demais a gente.

No dia do jogo, nós fomos até retirados da sala de refeição, que acho ser uma hora sagrada para o jogador. Era uma época política e São Januário virou a sede nacional da política brasileira. Tiraram a gente da mesa para ouvir discurso do senhor Cristiano Machado e da comitiva dele, composta por senadores e deputados federais. Quando voltamos a sentar à mesa, tivemos que levantar novamente, porque chegou o Ademar de Barros, com a sua comitiva.

Quer dizer, o jogo já não tinha mais valor algum. A coisa se tornou uma festa, em São Januário, antes da partida. Se tivéssemos continuado em São Conrado, seria concentração mesmo. Naquela época, pouca gente tinha automóvel. A Barra da Tijuca era um lugar deserto, onde os caras tomavam banhos nus na praia. Só tinha que ter medo dos aviões que davam razantes em cima dos caras. Era uma Barra livre, mas difícil de chegar.       

Eu tive medo da partida quando terminou o primeiro tempo, porque nós até podíamos ter goleado os uruguaios. Quando a gente passa um tempo dominando uma partida e o gol não sai, a gente sempre se assusta um pouco. Quando o gol do Friaça saiu, nós já não estávamos bem como no primeiro tempo. A partir dali não sei, houve um gelo no time, uma coisa incompreensível. Não vou responsabilizar ninguém, porque isso foi geral, embora tenham jogadores, ainda hoje, que foram responsabilizados demais. É o caso do Bigode, que até hoje sente na carne. Bigode é um sujeito, que vai a poucos lugares. Uma das poucas casas que ele frequenta é a minha e a do Ademir, porque ele sabe que lá em casa eu não vou deixar falar de futebol com ele, a não ser que ele queira. Mas, se houver uma conversa que não está agradando, eu corto. Não existe nenhum culpado numa equipe de futebol. Quem ganha são os onze, quem perde são os onze”.

Em 1951, o Bangu realizou bela campanha e decidiu o título com o Fluminense, numa série melhor de três e acabou vice-campeão:

“As equipes se equivaliam. Nós perdemos o título, porque perdemos três jogadores na primeira partida e não tínhamos reservas. O Bangu tinha uma boa equipe, mas não tinha jogadores à altura para substituir o Mirim, que foi expulso de campo, o Rafaneli, com uma torção no joelho e o Mendonça que fraturou a perna. Com isso nossa defesa se desarmou e ali perdemos o campeonato”.

Em dezembro de 1955, o Vasco participou do Torneio do Atlântico com as equipes argentinas do Independiente e do Racing. Zizinho, emprestado pelo Bangu, vestiu a camisa cruzmaltina na derrota diante do Independiente por 4 a 1 e na vitória sobre o Racing por 3 a 2.  

Zizinho ficou no Bangu até 1957, quando se transferiu para o São Paulo F.C., já veterano, com 37 anos, e conquistou o título de campeão paulista daquele ano:

“Eu vinha de Buenos Aires. Nós disputamos com uma seleção de novos, uma partida com a Argentina, cujo resultado foi 2 a 2. Quando eu cheguei, no aeroporto, fizeram o negócio e eu arriei minha mala e saltei em São Paulo. Perguntei ao diretor do São Paulo, quando o São Paulo jogaria e ele me respondeu que seria na 4a feira. Era uma 2a feira e o adversário seria o Palmeiras. Para mim um bom jogo para estrear.  

Na terça-feira, fizemos um treino de meia hora, porque eu queria saber como jogava o time do São Paulo. O Mauro me explicou que com o Canhoteiro você tem que jogar assim, com o Maurinho assim e o Gino você já conhece. Eu disse que estava tudo bem. Fomos lá e ganhamos de 3 a 0 do Palmeiras. Dali saimos goleando todo mundo, em São Paulo. Pegamos o Santos lá e metemos seis. O time do São Paulo era muito bom e eu fui uma peça com mais experiência. Mauro, Canhoteiro, Maurinho, Gino, Dino, Riberto, Poy formavam um belo time”.            

 Após a Copa de 50 vieram as Copas de 54 e 58 e Zizinho não foi chamado:

“Em 53, eu tive uma briga com a CBD, no sul-americano, em Lima. Eles fizeram mil burrices e eu paguei o pato Era muito comum no futebol brasileiro, responsabilizar aqueles jogadores que tinham mais crédito.

Em 54, eu soube por amigos meus, entre eles o Teixeira Heizer, amigo do Zezé, que a ordem da CBD era convocar o time que o Zezé quissesse, menos o Zizinho. Então, abriram uma guerra comigo. Tudo bem. Em 57, falavam sobre a minha ida para a seleção, mas não me convocaram”. 

Zizinho encerrou sua brilhante carreira em 1958, como jogador do São Paulo FC:

“Em 58, nós estávamos liderando o campeonato e faltavam cinco partidas. Eu estava com meu joelho enorme e vim ao Rio falar com o Pedro da Cunha. Quando cheguei ao aeroporto, encontrei com o time do São Paulo, que ia para São José do Rio Preto. Partida difícil à beça, ninguém tinha vencido lá em São José e o Renga (Renganeschi) disse para mim: “vamos até lá”. Eu vinha até de uma noitada na Ilha. Tinha ido ver a Elisete Cardoso, na Ilha do Governador, e saí direto para o aeroporto. Mas, tudo bem, fui para lá.

No São Paulo, não se podia sair, porque de 1o de janeiro a 31 de dezembro passava um livro de ponto, na casa da gente, às 11 da noite. Quem não estivesse era multado em 60%. Então, a parada era difícil. Quando eu vinha ao Rio eu aproveitava e dava uma saída.

Fui a São José do Rio Preto e chegando lá o time do São Paulo estava muito desfalcado. O Gino não pode jogar, o Dino também não, eu também ia ficar de fora e aí pedi ao Renga para entrar na partida. Ganhamos do América de São José do Rio Preto e quando retornei a São Paulo eu dei uma saída. Essa saída encerrou minha carreira, no São Paulo, porque no dia seguinte os jornais já diziam que eu tinha sido multado em 40 %, que estive em inferninhos e em vários lugares. Eu dei uma entrevista a Ultima Hora, de São Paulo, dizendo que o pessoal do São Paulo estava equivocado, porque eu estive no restaurante Muradas, que era o mais lindo de São Paulo, com uma orquestra de violinos e depois fui ver um show, na boate Oásis. Não estive em inferninho, porque assim a sociedade de São Paulo está frequentando péssimos lugares. Fui multado em mais 20 % pela resposta. 

 Tínhamos um jogo difícil contra a Portuguesa, que estava bem no campeonato, e eu joguei para não deixar os colegas mal. Marquei o primeiro gol nos 42 segundos de jogo, vencemos de 3 a 0 e após a partida entreguei meu pedido de rescisão. Faltavam mais três partidas e eu declarei que não era mais jogador do São Paulo. Vim embora e parei de jogar”. 

Considerado um dos mais notáveis jogadores de todos os tempos, “Mestre Ziza” com toda a sua experiência deixou alguns conselhos: 

“Primeiro, quem começa a jogar futebol é porque gosta. No momento, em que deixar de gostar, deve parar. Só se pode fazer algo bem, com muito prazer e muita vontade. Tem dia que a bola fica quadrada e cria vida própria. Nesse dia, o homem tem que trincar os dentes e arrastar a bola. Ele não pode se deixar vencer por causa disso, pelo dia mau. Ele deve sempre ter mais um pouco dentro de si para dar, do que ser derrotado pela bola”.

Zizinho posteriormente rumou para o futebol chileno, acumulando as funções de jogador e técnico do Audax Italiano.

Acompanhei a carreira de Zizinho a partir do final dos anos 40. Assisti grandes exibições do Mestre. Duas ficaram nas minhas lembranças como inesquecíveis. Diante da Iugoslávia quando o Brasil se classificou para a fase final do mundial de 50 com a vitória por 2 a 0 gols de Ademir e Zizinho.

Outra excepcional atuação aconteceu contra a Itália, no Maracanã, em 1956. Vencemos por 2 a 0. Zizinho nessa partida deu um drible que a bola parecia ter passado por dentro do italiano.

Depois da vitória sobre a Iugoslávia, o jornalista italiano Giordano Fattori escreveu na Gazetta dello Sport: “O futebol de Zizinho faz recordar Da Vinci, pintando alguma obra prima”.

O Da Vinci do futebol, o ídolo de Pelé, o eterno Mestre Ziza para todos nós, partiu no dia 2 de fevereiro de 2002, há quinze anos.

 

 
Depois do início no Carioca, Zizinho vestiu a camisa do Byron

 
Zizinho no dia de sua estreia no Flamengo antes do jogo contra o Independiente em 1939: Artigas, Flávio Costa, Nilton, Médio, Walter, Domingos e Volante; Jarbas, Gonzales, Leônidas, Neon, Zizinho e  Sá
 
 
Seleção carioca em 1942 com Zizinho: Jaime, Zarzur, Nilton, Jurandir, Domingos e Biguá; Pedro Amorim, Zizinho, Pirilo, Lelé e Vevé

 
Zizinho e Machado disputam a bola no Fla x Flu da lagoa que decidiu o campeonato carioca de 1942
 
 
Flamengo tricampeão carioca: Jurandir, Nilton, Quirino, Valido, Jaime, Bria, Pirilo, Zizinho, Tião, Biguá e Vevé

 
Seleção brasileira no sul-americano de 1945: Jaime, Norival, Rui, Oberdan, Domingos, Biguá e Flávio Costa;Tesourinha, Zizinho, Heleno, Ademir e Jorginho

 
Em 1946, recuperando-se da fratura que sofrera, Zizinho recebe os cuidados de Johnson na presença do goleiro Luiz Borracha

 
                                   

                           Na presença de Silveirinha, Zizinho assina contrato com o Bangu
 
 
No dia da assinatura do contrato com o Bangu, Zizinho é recebido por Domingos da Guia 
 
 
Zizinho veste pela primeira vez a camisa do Bangu antes do treino

 
Zizinho vibra após marcar contra a Iugoslávia na Copa de 1950

 
    Após a derrota para o Uruguai, Zizinho, ainda no gramado, é consolado por Máspoli

 
Time do Bangu que venceu o Fluminense por 1 a 0, gol de Vermelho, na última rodada do returno do campeonato carioca de 1951. O resultado provocou a realização da série melhor de três para a decisão do título: Rui, Alaine, Mirim, Mendonça, Osvaldo e Rafanelli; Djalma, Vermelho, Ziizinho, Moacir Bueno e Nívio

 
Zizinho, no vestiário, após a vitória do Brasil sobre o Chile, no campeonato sul-americano de 1953, em Lima

 
Em 1954, Zizinho e Tim, por ocasião da excursão do Bangu à Europa, diante do famoso quadro da Mona Lisa

 
Zizinho retornou à seleção brasileira contra o Paraguai, em 1955. Linha atacante o Brasil antes do jogo: Sabará, Didi, Zizinho, Valter e Escurinho


    Antes da partida diante da Itália, em 1956, Zizinho recebe homenagem por parte dos italianos

 
No vestiário, Flávio Costa abraça Zizinho depois da grande exibição do Mestre no jogo contra a Itália
 
 
No intervalo do jogo Vasco x Bangu no returno do campeonato carioca de 1956, Zizinho foi expulso pelo árbitro Eunápio de Queirós

 
Zizinho liderou o time do São Paulo na conquista do campeonato  paulista de 1957
 
 
 
Antes da partida São Paulo e Santos, Pelé cumprimenta Mestre Ziza, seu ídolo